A Falência | Amado Batista - O Cantador de Histórias - Parte 2

A Falência | Amado Batista - O Cantador de Histórias - Parte 2


A Falência - Parte 2


- Eu ia naqueles carrinhos caindo aos pedaços. Muitas vezes deixei de cumprir a agenda por que o carro quebrava na estrada e eu não conseguia chegar ao local do show. Em determinados momentos, eu chegava ao local que ia acontecer o show e tinha passado uma ventania que jogava o circo no chão - diz ele, gargalhando e gesticulando para ilustra a cena.

Naquela época, ele ficava triste ao ver o seu ganha-pão no chão, mas, quando contou o episódio, Amado gargalhou muito.

Um rapaz que viera do nada, que conseguira construir com dificuldades um patrimônio e tornar-se classe média, viu-se naquele momento na situação em que começar, do nada.

- É aquela história: "O boi engorda com o olho do dono", e é verdade. Amado deixou de administrar suas lojas e de visitálas com frequência, acabou por ter de vendê-las, para pagar suas dívidas. Ficou com o saldo bancário no vermelho.

Desistir? Que nada. Isso dava mais força para ele continuar.

E mais uma vez Amado começou de baixo. Cada vez que algo ruim acontecia com ele, mais vontade de crescer e alcançar novos horizontes ele tinha.

Amado ia fazer shows em cidades tão pequenas que achava que não teria público. Na hora do show, o local ficava lotado, pessoas da cidade e de regiões vizinhas gritavam seu nome. Ele subia ao palco e era aquela loucura, gritos e assovios o faziam ter certeza de que estava no caminho certo. Muitas vezes, chegou a ser saudado por garimpeiros, que tiravam o revólver da cintura e davam tiros para o alto. Sodré morria de medo dessa peripécia do garimpo.

Para Amado tudo era festa, até quando ele tinha que tomar banho de caneca envolto por uma cortina que só cobria o tronco, deixando cabeça e pés de fora, e seus fãs passavam pedindo autógrafos.

A precariedade era tamanha que ele viajava em aviões monomotores com portas remendadas com Durepox.

E os bancos? Simplesmente grades latas de óleo vazias, usadas com uma espécie de banqueta. O cantor e os músicos viajavam quilômetros e mais quilômetros sentados em latas.

Amado então ligou para Reginaldo - que não viajava com ele - e abriu o seu coração.

- Reginaldo, bicho, tô com a respiração ofegante. Vou ao médico e ele diz que eu não tenho nada. O que é isso?

Sodré, que sempre foi muito curioso com relação à medicina, respondeu:

- Rapaz, isso parece Sídrome do Pânico.

- O que é isso? - perguntou Amado.

- É uma doença causada por alguma frustração, um trauma psicológico qualquer. Você passou algum medo recente?

Amado começou a contar sobre suas viagens de avião.

Naquela época, as pistas de pouso e decolagem eram tão curtas que a cauda do monomotor era amarada em uma árvore e o piloto acelerava até não poder mais, para pegar impulso, como se faz com carrinho de fricção. Quando a corda estava totalmente esticada, outra pessoa vinha e "tchunf" cortava a corda e o avião decolava. Tamanho era medo que Amado passava que ele sempre pensava que iria morrer.

Foi uma época difícil para o cantor, que, apesar de ter estourado no Brasil inteiro, ainda estava no inicio da carreira. Ele trabalhava muito e ganhava pouco.

E o que ganhava mal dava para pagar o aluguel, se alimentar e sobreviver.

- Lembro do Amado já estar famoso, mas chegava lá em casa com um carro velho, que não pegava, e eu tinha que sair empurrando - contou Sodré.

Já não dava mais para viver daquele jeito. Goiânia tornara-se pequena para tanto sucesso.

Que pena que eu não posso ser 
O namorado rico que você quer ter 
Dou um duro danado pra ganhar o pão 
E não tenho um tostão 

Que pena que eu não posso dar 
O anel de brilhantes que te faz sonhar 
A minha bicicleta é o meu carrão 
Eu sou o pobretão


O Pobretão - Amado Batista

Anterior

Início

Próximo